Violência entre torcidas organizadas: especialista defende política permanente de segurança no futebol
Os recentes episódios de confronto ao redor do país mostram que a violência no futebol brasileiro ainda está longe de ser resolvida

Os confrontos violentos entre torcidas organizadas voltaram a chocar o Brasil no início de fevereiro, com episódios brutais registrados no Recife e em Minas Gerais.
Na capital pernambucana, torcedores de Sport e Santa Cruz protagonizaram cenas de terror, no dia 1º, antes do Clássico das Multidões. Já em Belo Horizonte, integrantes de organizadas de Cruzeiro e Atlético-MG entraram em conflito horas antes do clássico pelo Campeonato Mineiro, no último domingo (9).
A escalada da violência dentro e fora dos estádios reacendeu o debate sobre o que pode ser feito para conter essa onda de brutalidade. Em entrevista à Rádio Jornal, o juiz aposentado do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) e fundador do Juizado do Torcedor, Ailton Alfredo de Souza, destacou que a solução para esse problema não passa apenas por punições pontuais, mas por uma política permanente de segurança voltada para o futebol.
Violência no futebol exige resposta contínua
Para Ailton, a violência entre torcidas não pode ser tratada de forma isolada ou apenas quando tragédias acontecem. Ele enfatiza que países que conseguiram reduzir a brutalidade nos estádios adotaram medidas de controle contínuas e bem estruturadas.
"Essa noção de uso recreativo da violência por parte dos torcedores é um fenômeno que precisa ser combatido de forma constante. Todos os países que conseguiram controlar isso o fizeram por meio de uma política permanente de segurança. O que defendemos há anos é que haja uma política de Estado voltada para o futebol. Não adianta buscar culpados apenas no governo, porque temos falhado todos: como Estado e como sociedade", afirmou.
Responsabilização criminal dos envolvidos
Nos episódios recentes de violência, torcedores foram flagrados agredindo rivais com barras de ferro e pedras, caracterizando até mesmo tentativas de homicídio. Diante disso, o magistrado reforça que a solução não está apenas na punição coletiva, mas na responsabilização criminal individual.
"No dia dos episódios de violência, quando eclode o fenômeno, é preciso identificar e punir cada envolvido de acordo com a sua participação. Quem cometeu tentativa de homicídio, por exemplo, deve responder por tentativa de homicídio. A resposta tem que ser juridicamente possível e operacionalmente viável. Cada um deve responder conforme a gravidade da sua conduta", explicou Souza.
Futebol deve ser tratado como um grande negócio
O Estatuto do Torcedor e a Lei Geral do Esporte preveem diretrizes de segurança para os eventos esportivos, mas a realidade mostra que nem sempre essas normas são colocadas em prática com a devida rigidez.
Para o especialista, os clubes e as autoridades precisam encarar a segurança no futebol como um elemento essencial da gestão esportiva, e não apenas uma medida emergencial em dias de clássicos.
"Precisamos planejar a segurança dos jogos como prevê o Estatuto do Torcedor e a Lei Geral do Esporte. Esse plano não pode ser apenas um documento formal, mas uma operação planejada ao longo do ano inteiro. O futebol hoje é um grande negócio, e todo grande negócio precisa considerar seus custos com segurança, que são altos. Não dá para discutir segurança só no dia do clássico. Esse planejamento tem que ser constante", argumentou Souza.
Ele também defende uma maior identificação e monitoramento dos integrantes das torcidas organizadas, especialmente aqueles que apresentam condutas típicas de hooligans – termo usado para descrever torcedores extremamente violentos e criminosos.